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VICTOR HUGO VASCONCELLOS
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A LOUCURA É SENSATA


Texto do Machado sem o Machado

Olá! Convencido

Tudo bem com vocês?


Acredito que todos tenham acompanhado a polêmica da "simplificação" do conto "O Alienista" de Machado de Assis. A questão é muito ampla e pode despertar vários pontos de vista, até uns, pode parecer estranho, que defendam a ideia.


A escritora Patricia Engel Secco captou recursos da lei de incentivo do Ministério da Cultura para editar tal simplificação e o Instituto Brasil Leitor distribuirá 300 mil exemplares para diversas instituições.


Pontos relevantes: o projeto da escritora foi aprovado pelo Minc e conseguiu recursos financeiros na casa de um milhão de reais; o Instituto Brasil Leitor, cuja presidenta é a reconhecida escritora Ruth Rocha, aceitou distribuir os livros em várias instituições.


Se há respaldo cultural para esse projeto, pelo menos no plano teórico, por que tanta polêmica?


Há nomes "grandes" discutindo a questão: jornalistas e professores que ganharam o apelo popular a fim de endossar a negação da simplificação.


A ABL (academia Brasileira de Letras) divulgou no dia 07/05/2014, de acordo com o blog de Sonia Racy, do  Estadão, uma nota de repúdio à atitude da escritora Patrícia Secco, afirmando que "o texto assinado pelo autor é inviolável e, como tal, deve ser preservado". 


Ainda no blog de Sonia, há a criação de um abaixo-assinado virtual encaminhado ao Ministério da Cultura pedindo que a pasta “impeça a alteração das palavras originais nas obras da língua portuguesa”. A postagem é de 07/05/2014 e, segundo a jornalista, a petição já reunia mais de 5,2 mil assinaturas.


A mesma escritora Ruth Rocha, de acordo com a Folha do dia 10/05/2014, posicionou-se contra a simplificação, dizendo que Machado é "intocável" e que "é muito profundo, não vejo como simplificar".

Argumentos contra:


- Uma obra literária não é apenas conteúdo, é forma também. Mudar palavras, trocar por sinônimos, modificar  estruturas sintáticas, retirar trechos obscuros desconfiguram uma obra e as idiossincrasias autorais;


- após a adaptação, o autor não será mais Machado e sim, Secco;


- criar-se-á uma ilusão ao leitor, que pensará estar lendo um clássico;


- tirará a oportunidade de crescimento intelectual do leitor, pois a leitura rica favorece ao desenvolvimento cognitivo e cultural.


Argumento a favor:


- Levará livros com o nome de um dos maiores escritores brasileiros para as classes mais simples; apenas o nome.

 

Esses argumentos são um resumo das acusações ao projeto e a defesa da escritora.


Posição do blog A Loucura É Sensata


O Brasil está em uma amarga posição no ranking de educação. Nossas notas em leitura, raciocínio lógico e ciências naturais são muito inferiores aos países desenvolvidos e a muitos outros em desenvolvimento. Somos o 3º mundo em educação.


Como aconteceu nas décadas de 70 e 80 com as escolas e hospitais particulares, assim como as universidades particulares na década de 90; uma nova oportunidade surge por conta da falha do Estado, a bola da vez é melhorar a posição do Brasil em relação aos outros países no quesito educação.


A corrupção no Brasil é algo que já faz parte da normalidade de cada cidadão brasileiro. Difamamos nossos governantes do país e nos difamamos também, pois também somos corruptos, talvez em pequenas ações, mas somos. 


As empresas que se interessam por projetos sociais em que o Minc tenha aprovado nem sempre se preocupam com o projeto e sim em abonar o imposto da empresa. Nem todas as empresas são sérias. Nem todas as pessoas são sérias.


A questão é: muitas pessoas leram o projeto antes deste ser materializado. Muitas pessoas participaram diretamente e indiretamente desse processo. Pessoas da área de letras, artes e educação, e muitas pessoas, muitas mesmo, que não são dessas áreas, ou seja, leigos. 


Será que a ideia é boa mesmo? Pessoas sérias dessas áreas se manifestaram nesse processo? Um problema é a ideia. Contudo, foi materializada. Está aí pronta com a captação de mais de um milhão de reais.


Outra questão: é possível se adaptar ou simplificar uma obra de arte? Não deixaria de ser arte? Será que muitas pessoas da área artística (artes de verdade - plásticas, literárias...) devem ter achado que seria possível?


Público-alvo: pessoas que nunca leram ou leram muito pouco. Pessoas que não possuem acesso à cultura letrada. Elas teriam agora que uma obra de Machado foi simplificada? Distribuição e consumo são etapas bem diferentes.


Finalizando


A situação no Brasil está tão crítica devido à falta de seriedade que um projeto que tenha no nome "educação" e "leitura" está pré-aprovado. E isso é apenas uma hipótese, porque se realmente acontece, a falta de seriedade é dos nossos representantes que aprovam algo sem investigar devidamente os projetos e dos empresários que querem abonar seus impostos. 


A ideia possui pontos em que não vejo defesa. Não se adapta uma obra dentro do mesmo idioma a fim de simplificá-la. É como querer redesenhar os quadros de Picasso sem as formas geométricas características. Não é mais Picasso. 


Tirar o vocabulário de Machado, sua construção sintática e os efeitos de sentido próprios da enunciação machadiana é escrever outro texto, menos o que Machado enunciou.


Poder-se-ia ter feito outro projeto. Fazer uma coletânea de textos curtos de Machado (contos e crônicas), sem alteração no original e com glossário no rodapé ou no fim de cada texto. Textos que não são tão complexos como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas ou o próprio Alienista.


A democratização é poder dar a todo mundo de maneira que todos consigam aproveitar da mesma maneira. Por isso a educação no Brasil não é democrática. E simplificar o livro de Machado não é ser democrático, é mais uma vez enganar o povo que já sofre demais por receber migalhas de uma sociedade que preserva a arte original para os letrados e não se preocupa de maneira séria e compromissada em letrar os iletrados e marginalizados intelecto e socialmente.


Alguns links consultados:


http://blogs.estadao.com.br/babel/quanto-custou-o-projeto-de-simplificar-classicos-de-machado-de-assis-e-jose-de-alencar/


http://www.estadao.com.br/noticias/arte-e-lazer,patricia-engel-secco-defende-projeto-de-facilitar-obra-de-machado-de-assis,1164221,0.htm


http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy/abl-repudia-mudancas-em-obra-de-machado-de-assis/


Li também o texto de Lya Luft para a  revista Veja, as manifestações contrárias aos projeto do Jornal Folha (publicando até orelhas de burro e o título "Machado pra Burro" no dia 10/05/2014) e o Estadão ( Editorial "Falsificando Machado", carta ao leitor de Álvaro Cardoso Gomes - "Machado Falsificado" - ambos de 10/05/2014; "Adaptações na Berlinda", Caderno 2 de 09/05/2014).


Obrigado Pela visita e pelos comentários.


"INCRÍVEL COMO DEMOCRATIZAR GANHOU NOTABILIDADE. O QUE É DEMOCRATIZAR? TALVEZ SE A LOUCURA FOSSE DEMOCRATIZADA, NÃO VERÍAMOS NENHUMA DIFERENÇA NO QUE TEMOS HOJE".



Escrito por Jovem Werther às 01h04
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